domingo, 24 de outubro de 2010

Viagem à sombra

Tua casa sozinha – lassidão dos devaneios, dos segredos. Frocos verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo, grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de inocência ainda.

És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.

E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança! – o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o abismo?

Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei, fêmea! – Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! – teu corpo barroco em bolero e rumba. – Mais! – dança! dança! – canta, rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne dos batráquios...)

Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica - oh mulher, anjo, cadáver da minha angústia! – sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no momento desta sombra, na sombra desta agonia – minha – minha – minha – oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
 

Vinícius de Moraes
Rio de Janeiro, 1938.

2 comentários:

Confissões de uma borboleta disse...

Oi Karol...
Hannah é condinome?Um pseudonimo? Um nome de guerra? rs é o nome da minha gata persa.
Que bom te achar na blogosfera.
Pelo visto não és nova por aqui.
Quanto as jornada historiogólicas...hum...
Sei não, venham em VCA também.
Beijos

Hannah disse...

Karol=Hannah
Hannah=Karol
É o nome de sua gata e de minha sobrinha também.
Sempre gostei e um dia li que eram "sinônimos".
^.^
Não sou nova na blogosfera, mas me exponho pouco por aqui, Kal.
rs
O blog é mais para uso próprio que para consumo alheio.

Iremos em VCA sim.
Vamos marcar isso.
Beijos.