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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Sem inicio, meio ou fim

Eu era uma saudade que latejava
Um poço fundo de sentimento que não secava
Era uma ponte-travessia que se estreitava
Era um rio-correnteza que não cansava
Era viagem, partida e abrigo na chegada
Eu era apenas um caminho
Eu nunca aportava


Karolyne Gilberta

Dos dias em que sou a própria tempestade

No dia que nascera havia sol lá fora, mas chovia dentro de si.
Já passava do meio do dia e a luz era intensa lá fora.
Viera tomada por emoções que se desenvolveram enquanto ainda era feto crescendo no útero da mãe:
E elas sacudiam-na.
Desde o começo de sua eternidade, tinha um verdadeiro temporal em seu interior.
Em seus deságues veio primeiro a família,
esta que ocupava-lhe o íntimo e suas devoções iniciais.
Não era nem gente, mas sentia que era importante ocupar dos outros e de suas dores.
Depois vieram os(as) amigos(as) e roubaram-lhe a outra metade daquilo que era.
Agora já era preciso que se desdobrasse para dar conta de ser completa.
Por fim, foram chegando-lhe os amores e ela dividiu-se mais uma vez.
Agora já era três,
Mas ainda era uma.
Tudo a compunha.
Com o tempo dissolveu-se a distinção de quem era família, amigos(as), amores... e a tríade voltou a refazer-se numa coisa só.
Todos os dias vinha novamente a chuva,
às vezes, aparecia um arco-íris aqui ou acolá ao fim dos ventos, das nuvens e das águas que corriam.
Concluiu que aquilo nada mais era que o amor fazendo morada em seu corpo
e um medo imenso de um dia acordar e ter se ido todo esse amor de dentro de seu ser.
Medo de esvaziar-se.
De tanto sonhar intranquila,
tantos e tantos dias materializava a chuva que corria em seu estômago
e os dias, como aquele que acabara de nascer, amanheciam nublados e com torrentes d’água a desabar
do céu-azul-de-sua-boca
sobre a terra seca do sertão.


Karolyne Gilberta

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Dos dias confusos

Com a cabeça tão em tormenta que se não sangro poesia nas noites de insônia, morro devorada pelas palavras não escritas. Sei que de tanto ser eu mesma, hora dessas perigo ir e nunca mais voltar.
 
 
 
Karolyne Gilberta

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Rosa Rubra

Com uma naturalidade que lhe é peculiar a rubra rosa se abre aos olhos dos homens e do mundo. Dá voltas e voltas em torno de suas próprias partes. Forma quase um labirinto ao redor de si. Pensa sempre que seu autoconhecimento é insuficiente. Uma enternecida inveterada pede abraços e retribui com vigor. Deixa-se ser agarrada ao mesmo tempo em que agarra e crava os dentes em quem se aconchega em suas dobras. Ela canta. Às vezes músicas ternas, quase cantigas de ninar, mas quando em fúria, canta músicas agressivas, músicas de libertação. Sibila de alegria a maior parte de seus dias. É uma dançarina também. Faz artes e artimanhas. Em suas danças, tem muita alegria em receber aqueles que convida para lhe fazerem par. Acredita que fala muito, mas quase sempre diz coisas impróprias, inadequadas. Quando úmida se contrai, fica frenética, tremula tal qual bandeira agitada pelo vento. Desesperada, procura em quem se agarrar. Nessas horas assume um cheiro meio amadeirado, outra dose doce também e abandona seu estado liquefeito tornando-se algo quase cremoso. Tão suave. Gosta de estar acompanhada. Deseja quase sempre assim estar. Já foi muito ferida e hoje é um tanto melancólica, mas mesmo assim não deixou que os olhos ficassem rasos. Só permite-se profundezas. Há dias que fica tão rubra que jorra sangue, meio que chorando por sua condição de estrada de entrada e saída do mundo.


Karolyne Gilberta
Texto inspirado em "Os monólogos da Vagina" de Eve Ensler. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Estigma



Era considerada pelas boas moças uma destruidora de lares... Uma verdadeira corruptora dos bons costumes e da  moral.
O balançar diário de suas saias incomodava uns tantos, atiçava o imaginário de tantos outros.
Não se sabe ao certo se era seu largo sorriso, seus seios fartos e empinados, sua pele tomada pelo sol ou seus dentes alvos cobertos por lábios rosados e carnudos. Tudo era motivo de agrado e desagrado. 
Uma santa, uma puta, uma desavergonhada, alvo dos desejos sórdidos de inúmeros!
Desejavam-na, odiavam-na, mas  no fim das contas, todos esperavam o momento que suas saias esvoaçantes passariam diante de seus olhos atentos.
E ela seguia distante na rotina alheia como se nem fizesse parte daquilo tudo, afinal de contas, era o imaginário do povo. Nada que ela pudesse controlar.


Karolyne Gilberta

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

E (in) m...compreensão?

 Sou um texto mal escrito repleto de palavras dispersas que juntas formam um conjunto incompreensível.
Tentaria eu descrever-me se desvendar-me ao me desnudar não  fosse a parte mais complexa do processo.
Descubro assim que jamais será  possível descobrir o eu que existe em mim.


Karolyne Gilberta