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terça-feira, 10 de maio de 2011

Parte III - A Cidade do Sol

 No trajeto de volta para casa, apoiada em Mariam, Laila podia ouvir os gritos apavorados da filha. Revia nitidamente a cena: as mãos grandes e calosas de Zaman segurando a menina pelos braços, puxando-a, a princípio com brandura, depois, com mais vigor, e, finalmente, com força, para fazê-la soltar a mãe. Via Aziza, nos braços do diretor, dando chutes e pontapés, enquanto ele a levava às pressas para algum lugar; e ouvia a menina gritar como se fosse desaparecer da face da terra. E via a si mesma, correndo pelo corredor, de cabeça baixa, com um berro lhe subindo pela garganta.
 — Sinto o cheiro dela — disse a Mariam quando já estavam em casa. Seus olhos fitavam o vazio, por sobre os ombros de Mariam, para além do quintal, dos muros, na direção das montanhas, escuras como uma cusparada de tabaco. — Sinto o cheiro dela dormindo. Você também sente? Sente o cheiro dela?

sábado, 30 de abril de 2011

Parte II - A Cidade do Sol IV

 Com o passar do tempo, foi aos poucos se cansando desse exercício. Começou a achar cada vez mais exaustivas essas tentativas de evocar, de desenterrar, de ressuscitar mais uma vez o que há muito tinha morrido. Na verdade, anos mais tarde, chegaria o dia em que Laila não choraria mais por essa perda. Ao menos, não tanto; não tão constantemente. Chegaria o dia em que os detalhes daquele rosto começariam a escapar às garras da memória, em que o simples fato de ouvir uma mãe chamando o filho de Tariq pela rua não a deixaria inteiramente desnorteada. Não sentiria tanta falta dele como agora, quando a dor de sua ausência não a deixava em paz por um momento sequer — como a dor fantasma de um membro amputado.
 Depois de adulta, só muito raramente, quando estava passando uma camisa ou empurrando os filhos no balanço, alguma coisa bem banal, talvez o contato quente do tapete sob os pés num dia de calor, ou o contorno da testa de um estranho, trazia à tona a lembrança daquela tarde. E, de repente, tudo voltava à sua mente. A espontaneidade daquele momento. A espantosa imprudência dos dois. Sua falta de jeito. A dor, o prazer, a tristeza daquele ato. E o calor de seus corpos abraçados.
  Aquela lembrança a inundava, chegando a lhe tirar o fôlego. Mas passava. O momento passava. Deixando-a vazia, sentindo apenas uma vaga inquietação. Chegou a conclusão que ele tinha perguntado "Estou machucando você?" Isso mesmo. E ficou feliz por ter se lembrado.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Parte II - A Cidade do Sol III

Naquele instante, tudo o que mammy tinha dito sobre reputação e mainás lhe pareceu absolutamente insignificante. Até mesmo absurdo. No meio de tanta matança e de tantas pilhagens, de todo aquele horror. Aquele beijo ali debaixo de uma árvore não podia fazer mal algum. Era uma coisinha à toa. Uma indulgência facilmente desculpável. Então, deixou que Tariq a beijasse e, quando ele se afastou, Laila se inclinou para beijá-lo, com o coração aos pulos, o rosto ardendo, um fogo queimando por dentro.


terça-feira, 19 de abril de 2011

Parte II - A Cidade do Sol II

 De quando em quando, ao ver os olhares tristonhos das pessoas naquela sala, Laila percebia a intensidade do desastre que se abateu sobre sua família. As possibilidades negadas. As esperanças frustradas.
 Mas o sentimento não durava muito. O difícil era sentir, sentir de verdade, a perda de mammy. Não era fácil tentar experimentar a tristeza, sofrer pela morte de gente que ela nunca tinha considerado viva.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Parte II - A Cidade do Sol

Quando ouvia essas histórias, Laila percebia nitidamente que tinha havido uma época em que a mãe falava sempre de seu pai nesses termos. Uma época em que seus pais não dormiam em quartos separados.
E a menina adoraria ter vivido esse tempo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

A Cidade do Sol IV

Quando pensava no bebê, seu coração crescia no peito. Crescia e crescia até que todas as tristezas, as dores, a solidão e o sentimento de inferioridade que haviam povoado a sua vida
desapareciam por completo. Foi para isso que Deus a trouxe até aqui, fazendo-a atravessar o país de um lado a outro. Agora, sabia disso. Lembrou de um versículo do Corão que o mulá Faizullah tinha lhe ensinado: "A Allah pertencem o leste e o oeste, e para onde quer que vos volteis lá encontrareis a face de Allah..." Ajoelhou-se no tapete de orações e fez suas namaz. Quando terminou, escondeu o rosto com as mãos e pediu a Deus que não deixasse toda essa felicidade lhe escapar.

 

A DOR CONTINUAVA A SURPREENDER MARIAM. Bastava ela pensar no berço inacabado, ali no galpão do jardim, ou no casaco de camurça guardado no armário de Rashid. Com isso, o bebê ganhava vida e ela podia ouvi-lo, podia ouvi-lo resmungar, com fome, podia ouvir seus murmúrios e seus balbucios. Sentia a criança farejando os seus seios. Aquela dor a invadia, a dominava, revirava todo o seu ser. Mariam estava estarrecida: como podia sentir tanta saudade de alguém que jamais tinha chegado a ver?

...

Mas a dor de Mariam não era vaga e indeterminada. Estava sofrendo por aquele bebê, aquela criança em particular, que, por algum tempo, a tinha feito tão feliz. Às vezes, achava que o bebê tinha sido uma bênção que ela não merecia, e que estava sendo punida pelo que tinha feito a Nana. Pois não era exatamente como se ela mesma tivesse posto a corda no pescoço da mãe? Filhas ingratas não merecem ser mães, e o castigo era justo. De quando em quando, sonhava que o jinn de Nana vinha ao seu quarto, a noite, se arrastando, para abrir sua barriga com as
garras e roubar o seu bebê. Nesses sonhos, Nana ria muito, deliciada com aquela vingança.

...

A culpa era de Deus, por zombar dela daquele jeito. Por não lhe conceder o que concedia a tantas outras mulheres. Por acenar para ela, de forma tão sedutora, com a coisa que a deixaria mais feliz e, depois, voltar atrás.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Cidade do Sol III

Adoraria que a mãe estivesse viva para ver isso. Para vê-la em meio a tudo isso. Para ver, enfim, que alegria e beleza não são coisas inatingíveis. Mesmo para gente como elas.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Cidade do Sol II

Mariam se virou e foi se dirigindo para a porta do ônibus. Ouviu os passos dele às suas costas. Quando já estava quase entrando, ele a chamou: 
— Mariam jo!
Ela subiu os degraus e, embora pudesse vê-lo ao seu lado com o rabo do olho, não olhou pela janela do veículo. Foi caminhando pelo corredor até o fundo do ônibus, onde Rashid estava sentado com a mala dela entre os pés. Não se moveu quando viu as mãos de Jalil na vidraça, quando os seus dedos bateram no vidro várias vezes. O veículo arrancou, e ela nem se virou para vê-lo correndo ao seu lado. E, quando partiram, não olhou para trás para vê-lo desaparecer na nuvem de poeira e de fumaça do
cano de descarga.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sobre mortos nem tão mortos assim

— E aquela história de não falar mal dos mortos?
— Na minha opinião, tem gente que nunca está morta o bastante — disse ele.


....







— Já faz quase vinte anos que ele morreu — disse Laila. — Será que morrer uma vez só não basta?


Khaled Housseini
Trecho de A Cidade do Sol

domingo, 3 de abril de 2011

A Cidade do Sol

— Volte! Não! Não olhe agora. Vire-se! Volte! Mas foi em vão.
Mariam viu assim mesmo. Uma rajada de vento afastou as folhagens do salgueiro-chorão, como se abrisse uma cortina, e a menina avistou de relance o que estava do outro lado: a cadeira de encosto alto, caída no chão. A corda pendendo de um ramo mais alto. E Nana pendurada na outra ponta.

...

Para cada tribulação e cada sofrimento que Deus nos faz enfrentar, Ele tem um motivo.
Mas Mariam não conseguia perceber consolo algum nas palavras de Deus. Não naquele dia. Não naquele momento. Tudo o que podia ouvir era a voz de Nana dizendo: "Se você for, eu morro. Simplesmente morro."

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Como eu podia ser assim tão transparente para ele quando, pelo menos em cinqüenta por cento das vezes, não fazia a menor idéia do que estaria passando pela sua cabeça? E era eu que ia ao colégio. Era eu que sabia ler e escrever. Era eu o inteligente. Hassan não era capaz de ler nem
um livro de primeira série, mas podia me ler com a maior facilidade. Era um tanto perturbador, mas também um pouco reconfortante ter alguém que sempre sabia do que você estava precisando.
Não trocamos uma palavra; não porque não tenhamos nada a dizer, mas porque não precisamos dizer nada - é assim que acontece com as pessoas para quem a outra é a lembrança mais remota; com pessoas que mamaram do mesmo leite.

Reflexo dos outros

Adoraria não ter começado aquela conversa.Dei um sorriso forçado.

- Não seja idiota,Hassan. Você sabe muito bem que eu não faria isso!

Ele também sorriu. Só que o dele não parecia forçado.

- Eu sei - disse.

E esse é o problema das pessoas que são sinceras: acham que todo mundo também é.


O caçador de Pipas.


Tem maior verdade que isso?
Ingênuidade:me sinto sempre tão assim!
=/