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segunda-feira, 10 de junho de 2013

E por que haverias de querer minha alma na tua cama?

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo.
Obriga-me.

Hilda Hilst

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Lança esse teu olhar sacana
sobre minha direção
Faça graça faça arte
pra chamar minha atenção
Dança com vontade
se acaba na perdição
Flerta com outras, se joga
o que vale é a diversão
Depois volta, e mais uma noite
você estremece na minha mão

Grazi

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Desejo pede voz

Deita assim
Quero derramar poesia em você
E beber
Cada gota dos teus gemidos
Teus seios pra mim
São cálices sagrados
Quero comer
Cada centímetro dos teus orgasmos

Hoje não quero teu silencioso desejo
Teus suspiros
Que melodiam os meus delírios

Hoje quero ver-te inteira
Voz inteira
Quero ouvir você
E o seu corpo
Me pedirem
Te enche a boca de água
E os olhos de vontade
E você ainda não fez



Quero que nossos exageros
Girem a terra mais rápido
Que assim que as nossas pernas
Se chocarem
Que se choquem
Os nossos melhores sons
Gravados no ar

Não conheço harmonia mais perfeita
Do que te ouvir gozar

Almi Junior

Elogio do Pecado ...


Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.

É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

Bruna Lombardi

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A vida sexual de Catherine Millet

Desaparecer durante dois dias em companhia de um homem que eu mal conhecia, ou, como aconteceu durante muitos anos, manter um relacionamento permanente com um colega que morava em Milão, valia tanto pela viagem e pela mudança de país, quanto pela promessa de ser fodida, tocada e enrabada de um jeito diferente do que estava acostumada. Se fosse possível, eu gostaria de abrir os olhos a cada manhã à sombra de um teto ainda inexplorado e, ao sair de baixo dos lençóis. ficar alguns segundos vacilante na terra de ninguém de um apartamento no qual, desde a véspera, eu desconhecia a direção em que se encontrava o corredor que levava ao banheiro. Neste momento, apenas o outro corpo que está estendido por trás de nós e que conhecemos há apenas algumas horas, mas que nos alimentou durante todo este tempo com sua consistência e seu odor, nos proporciona o inefável bem-estar do contato familiar. Quantas vezes já não pensei. quando fabulava sobre a vida das prostitutas de luxo, que esta era uma vantagem da profissão.
 
Trecho de A vida sexual de Catherine Millet.
Catherine Millet.
 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Leite Derramado

Aqui não me darei ao desfrute de divulgar intimidades de Matilde, mas digo que cada mulher tem uma voz secreta, com melodia característica, só sabida de quem a leva para cama. Foi a voz que ali escutei, ou quis escutar, havia semanas que não me deitava com Matilde. E me deliciei de imaginar que naquele momento ela se acariciava pensando em mim, como eu a namorava em pensamento toda noite em meu quarto.

Trecho de Leite Derramado de Chico Buarque.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

H. H.

Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.

Hilda Hilst

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Perfil de Libra

Mesmo quando não conhecem filosofia, os librianos compartilham da visão de um dos mais importantes filósofos da história: Platão. Ele dizia que o que nós vemos do mundo é apenas um pálido reflexo de um outro, de formas perfeitas, que existe num outro plano: o mundo das ideias. Como vivem num mundo imperfeito, os librianos parecem sempre um pouquinho deprimidos. Na verdade, estão decepcionados. E são completamente fascinados por espelhos. Ninguém vê a si mesmo diretamente. O homem só conhece a própria imagem através de reflexos. Reflexos que podem estar num lago, numa vitrine ou, no mais extraordinário de todos os espelhos: os olhos de uma outra pessoa. Essa visão, ou melhor, o tipo de informação que vem daí, acompanha os librianos em todos os momentos da vida. Por isso eles se preocupam tanto com o que os outros vão pensar. Eles sabem o tempo todo qual é o efeito que causam. Daí a fama de vaidosos. Quem não se preocupa com a aparência quando está diante de um espelho? E também a ideia de que eles fazem qualquer coisa para serem aceitos pelo grupo: eles sabem exatamente o que o grupo espera deles. Essa capacidade de saber ler os olhos dos outros às vezes é um obstáculo, mas quando é bem usada, faz dos librianos os melhores diplomatas e os amigos ou companheiros mais gentis de todo o Zodíaco. Como Libra é a casa de Vênus, a deusa do amor e da beleza, e o exílio de Marte, o deus da guerra, eles já nascem pacifistas. Ninguém encarnou tão perfeitamente o ideal libriano como o Mahatma Ghandi, que nasceu no dia 2 de outubro de 1869, e dedicou toda a sua vida a mostrar na prática que é possível ganhar uma guerra com uma proposta de paz.


Pausa na programação normal para um texto absolutamente "fora de contexto".
Recebi esse texto acompanhado de um "acarihamento" de uma pessoa muito especial.
E fazer o que se eu ainda acredito em signos e no que o cosmos tem a dizer sobre nós?

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

"Vagina"

"Vagina!" Pronto, eu disse. "Vagina!" — disse de novo. Tenho dito esta palavra o tempo todo nos últimos três anos. Já a disse em teatros, em faculdades, em salas de estar, em cafés, em jantares, em programas de rádio. Tenho dito "Vagina!" por todo o país. Já teria dito "Vagina!" na televisão se alguém deixasse. Eu digo "Vagina" 128 vezes todas as noites durante o meu show, Os Monólogos da Vagina, baseado em entrevistas com mais de duzentas mulheres de diversos grupos sobre as vaginas delas. Já disse "Vagina!" enquanto dormia. E digo porque ninguém espera que eu diga. E digo porque se trata de uma palavra invisível — uma palavra que desperta ansiedade, alerta, desprezo e nojo.
Eu digo a palavra porque acredito que aquilo que não dizemos nós também não vemos, não reconhecemos
ou lembramos. O que não dizemos se transforma num segredo, e segredos, muitas vezes, criam vergonha, medos e mitos. Eu digo a palavra invisível porque quero dizê-la um dia sem sentir vergonha ou culpa. Quero dizê-la com tranqüilidade.


Trecho da introdução de "Os monólogos da vagina" de Eve Ensler.
Leitura séria que recomendo para tod@s. Afinal, precisamos nos conhecer para nos reconhecer.

Solidão é um tipo de morte

Do pátio de dentro nunca sairemos.
Solidão é um
tipo de morte.


João Filho

Do desejo

IX

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Hilda Hilst

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Presente de minha rwaar para mim

Ele disse que ia sair, ela se ajoelhou aos seus pés, pediu que ficasse, ele disse que não, então ela segurou suas pernas, mas logo soltou, abriu o zíper, baixou as calças e o chupou matando sua vontade.




A lindeza da rwarrr fez esse microconto delicioso e me enviou via rede social.
Oúnnn. Morri de amores e forura.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Soneto de Infidelidade

Nem sempre, meu amor, esteja dentro
Antes, saiba fazê-lo entre tantos

Que mesmo em fase de algum l
amento
Estremeça em meu corpo vibrando

Quero tê-lo nos vãos em movimento
E nesse calor me lambuzar de encantos
E rir sem siso, te desejar num canto
do meu delírio de acasalamento

Assim, em cada vez que te procuro
Quem sabe, com sorte, eu ainda salive
Quem sabe, com tesão, na minha cama

Eu possa ter teu membro em riste:
Que não seja só rápido, mas sacana
Que esteja interno enquanto duro


Sandra Regina

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O país do carnaval

Paulo Rigger aproximou-se.
- Mademoseille...
- Mademoseille, não. Julie, sim.
- Ah, Júlia, você é adorável!
- Só isso que você me diz? Isso me disseram todos aqueles rapazes que me galantearam há pouco. Eu pensei que você tivesse qualquer coisa mais nova para me dizer...
- Sim, tenho. Quero lhe dizer que os seus olhos prometem coisas absurdas, mas eu conheço todas as coisas absurdas e duvido muito que me dê qualquer coisa nova.
- Hoje à uma hora. A porta de meu camarote estará aberta... Esperá-lo-ei.
No seu camarote Paulo Rigger pensava se devia ir ao encontro de Julie. Uma grande lassidão invadia-lhe os membros. Pensou em Julie. E teve medo dos seus olhos. Não, não iria. Aquela mulher era capaz de se agarrar a ele como uma sarna no Brasil. E, ademaos, não passava de uma rameira conhecida. Uma mulher que amava por dinheir, sem amor. Que lhe poderia dar de novo? Prazer, ele conhecia muito. Carne... Mas o amor talvez não fosse somente carne... Talvez fosse alguma coisa mais... Essa outra coisa, ele não conhecia. Afirmava até que ela não existia. Existisse ou não, a francesinha não lha poderia dar. Daria somente o sexo... E do mesmo modo de sempre. Bolas! Não iria lá...
E Julie esperou por toda a noite, nua, a sonhar volúpias incríveis. Depois, chorou de raiva, mordendo o travesseiro... Por fim xingava-o, era um animal. Não sabia que ela reservara para ele as carícias que nunca vendera a ninguém... Imbecil!
E Paulo Rigger sonhava que tinha uma namorada romântica que lia Henri Ardel e tocava valsas muito sentimentais no piano.
No outro dia, o grito da descoberta:
- Terra! Terra!
Lá longe, o País do Carnaval.

Jorge Amado.

domingo, 9 de setembro de 2012

Vou ficar nu(a) pra chamar sua atenção

Todas as vezes que você passa e nem me vê
Fico pensando no que eu faria pra ter você
Pra ter você de qualquer forma
De qualquer jeito, qualquer maneira
Você nem sabe que eu estou ficando infeliz
Não posso mais guardar comigo os versos que eu já fiz
Pra lhe dizer do meu amor
Também fui eu quem lhe mandou aquela flor
Vivo fazendo milhões de coisas
Qualquer loucura pra ter você
E os dias passam correndo vou acabar lhe perdendo
Preciso descobrir um jeito
De chamar sua atenção
O meu melhor sorriso eu dei você não viu
Gritei seu nome mas nem assim você me ouviu
Por mais que eu faça não adianta
Você nem nota minha existência
E os dias passam correndo e de esperar vou morrendo
Vou acabar ficando nu pra chamar sua atenção
Vou acabar ficando nu pra chamar sua atenção
Vou acabar ficando nu pra chamar sua atenção


Erasmo Carlos

Poema Impróprio


Vou lhe escrever um poema indecente
Um poema imoral e sensual
Impróprio para qualquer idade
Com todas as permissividades
Cheio de sensualidades
Com bastante imoralidades
E muitas cumplicidades
Quero que você escolha o tema
Minha boca, meu ventre.
meu orgasmo, minha bunda
Em qualquer tema vou fundo
Não se espante! Não se acanhe!
Nem tampouco me estranhe
Sabe que faço o que quero
Nunca lhe peço licença
Pois eu faço o que você pensa
Logo não há novidade
Em tudo que gosto de escrever
Escrevo e falo e faço!
Tudo com o maior prazer
Não saia pois do meu espaço
Pois é para você que quero escrever,
falar e fazer!
E você vai adorar ler,
ouvir e fazer!

Marly Caldas

sábado, 8 de setembro de 2012

O menino grapiúna - parte II

Os pais arruinados, perdidas as terras e as roças de cacau, cortam e preparam couro para tamancos. A casa pobre é moradia e oficina, mas o menino vive na praia, no encontro do rio com o mar, as ondas poderosas e as águas tranquilas, o coqueiral, o vento e a presença da menina por quem pulsa seu pequeno coração. Como se chamava? Perdeu-se o nome, na memória ficou apenas a imagem da cavalgada, de mistura com as histórias de fadas e piratas em curiosas versões regionais de dona Eulália. Ficaram o audaz alazão e o rosto moreno, os cabelos lisos, de cabo verde, da primeira namorada. Namorada seria muito dizer, com tão pouca idade ainda não se namorada, mas com que intensidade se ama!!

Jorge Amado
Trecho do livro "O menino grapiúna".

O menino grapiúna

A longa e dura experiência ensinou-me, no passar dos anos, a importância de pensar pela própria cabeça. Para pensar e agir por minha cxabeça, pago um preço muito alto, alvo que sou de patrulhamento de todas as ideologias, de todos os radicalismos ortodoxos. Preço muito alto, ainda assim muito barato.

Jorge Amado
Trecho do livro "O menino grapiúna".

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Cartas de um sedutor

Tom foi medicado na hora do enterro de Kraus porque não suportou vero amigo morto e ainda sorrindo. Estou doente por tudo isso e porque não posso pensar na morte, nem na minha nem na do Kraus nem da barata, tenho medo da pestilenta senhora e imagino-me puxando-lhe o grelo, esticando-lhe os pentelhos até ouvir sons tensos arrepiantes. Hoje gritei demente: vem, Madama, vem, e irado, numa arrancada, soltei da pestilenta grelo e pentelhos e eles esbateram-se frenéticos nos seus baixos meios. Se pudesse seduzir a morte, lamber-lhe as axilas, os pêlos pretos, babar no seu umbigo, enturpir-lhe as narinas de hálitos melosos, e dizer-lhe: sou eu, gança, sou eu, mariposa, sou Karl, esse que há de te chupar eternamente a borboleta se tu lhe permitires longa vida na olorosa quirica do planeta.

Hilda Hilst

[...]

Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, qualquer coisa para ocupar o tempo, um banco de almofadas coloridas, e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banco do nosso amor, do nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a não sei quantos anos, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas.

Rita Apoena