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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Alvo, alvo, no alvo!

Encantei-me por um livro de capa branca
Aquela alvura me tomando os olhos, me roubando os gestos
Apenas algumas pequenas gotas de tinta cinza salpicando trechos insignificantes do papel
Vendei meus olhos, me joguei na estória
Caí de cara nas imagens que meus olhos não liam
Quis morar para sempre na infinitude daquele papel
Foi tudo tão rápido e instantâneo que nem tempo tive de relutar.
 
 
Karolyne Gilberta

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

"Vagina"

"Vagina!" Pronto, eu disse. "Vagina!" — disse de novo. Tenho dito esta palavra o tempo todo nos últimos três anos. Já a disse em teatros, em faculdades, em salas de estar, em cafés, em jantares, em programas de rádio. Tenho dito "Vagina!" por todo o país. Já teria dito "Vagina!" na televisão se alguém deixasse. Eu digo "Vagina" 128 vezes todas as noites durante o meu show, Os Monólogos da Vagina, baseado em entrevistas com mais de duzentas mulheres de diversos grupos sobre as vaginas delas. Já disse "Vagina!" enquanto dormia. E digo porque ninguém espera que eu diga. E digo porque se trata de uma palavra invisível — uma palavra que desperta ansiedade, alerta, desprezo e nojo.
Eu digo a palavra porque acredito que aquilo que não dizemos nós também não vemos, não reconhecemos
ou lembramos. O que não dizemos se transforma num segredo, e segredos, muitas vezes, criam vergonha, medos e mitos. Eu digo a palavra invisível porque quero dizê-la um dia sem sentir vergonha ou culpa. Quero dizê-la com tranqüilidade.


Trecho da introdução de "Os monólogos da vagina" de Eve Ensler.
Leitura séria que recomendo para tod@s. Afinal, precisamos nos conhecer para nos reconhecer.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O país do carnaval

Paulo Rigger aproximou-se.
- Mademoseille...
- Mademoseille, não. Julie, sim.
- Ah, Júlia, você é adorável!
- Só isso que você me diz? Isso me disseram todos aqueles rapazes que me galantearam há pouco. Eu pensei que você tivesse qualquer coisa mais nova para me dizer...
- Sim, tenho. Quero lhe dizer que os seus olhos prometem coisas absurdas, mas eu conheço todas as coisas absurdas e duvido muito que me dê qualquer coisa nova.
- Hoje à uma hora. A porta de meu camarote estará aberta... Esperá-lo-ei.
No seu camarote Paulo Rigger pensava se devia ir ao encontro de Julie. Uma grande lassidão invadia-lhe os membros. Pensou em Julie. E teve medo dos seus olhos. Não, não iria. Aquela mulher era capaz de se agarrar a ele como uma sarna no Brasil. E, ademaos, não passava de uma rameira conhecida. Uma mulher que amava por dinheir, sem amor. Que lhe poderia dar de novo? Prazer, ele conhecia muito. Carne... Mas o amor talvez não fosse somente carne... Talvez fosse alguma coisa mais... Essa outra coisa, ele não conhecia. Afirmava até que ela não existia. Existisse ou não, a francesinha não lha poderia dar. Daria somente o sexo... E do mesmo modo de sempre. Bolas! Não iria lá...
E Julie esperou por toda a noite, nua, a sonhar volúpias incríveis. Depois, chorou de raiva, mordendo o travesseiro... Por fim xingava-o, era um animal. Não sabia que ela reservara para ele as carícias que nunca vendera a ninguém... Imbecil!
E Paulo Rigger sonhava que tinha uma namorada romântica que lia Henri Ardel e tocava valsas muito sentimentais no piano.
No outro dia, o grito da descoberta:
- Terra! Terra!
Lá longe, o País do Carnaval.

Jorge Amado.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Mulheres - por Bukowski

Tinha as minhas ideias sobre sexo. Andava teso e masturbava-me constantemente. Fazia amor com Lydia e quando chegava a casa de manhã masturbava-me. Pensar no sexo como coisa interdita lançava-me num estado de excitação próximo do delírio. Como um animal que submete o outro, lançando-o ao chão.
Quando me vinha tinha a sensação de o fazer sobre o rosto de tudo o que era decente, o branco esperma pingando sobre as cabeças e as almas dos meus pais já mortos. Se eu tivesse nascido mulher, seria certamente prostituta. Mas como nasci homem, desejava constantemente mulheres, e quanto mais decadentes, melhor. E contudo as mulheres -- as mulheres respeitáveis assustavam-me porque elas queriam apossar-se da alma e eu queria manter o que restava da minha. Eu desejava essencialmente prostitutas, mulheres decadentes, porque elas eram mortais, insensíveis e não pediam nada. Quando se iam embora, não perdíamos nada. Ao mesmo tempo desejava uma mulher doce e gentil, apesar do preço a pagar. De qualquer dos modos, eu estava perdido. Um homem forte conseguiria as duas coisas. Eu não era forte. Por
isso continuei a lutar com mulheres, com a ideia das mulheres.

Charles Bukowski
Trecho da obra Mulheres.

Mulheres - por Bukowski [...]

[...] tentaram chamar a sua atenção, mas ela caminhava ao meu lado, agarrando-me o braço. Há muito poucas mulheres bonitas que aceitam mostrar em público que pertencem a alguém. Tinha conhecido mulheres suficientes para perceber isto. Eu aceitava-as por aquilo que eram e o amor chegava rara e dificilmente. Quando aparecia, era habitualmente por razões erradas. Simplesmente porque as pessoas se cansam de recusar o amor e deixam-se ir porque precisam de ir para algum lugar. Depois, começam os problemas.

Charles Bukowski
Trecho da obra Mulheres.

Mulheres - por Bukowski ...

Por fim adormeci. Quando acordei, de manhã, Katherine estava sentada na borda da cama a escovar aqueles metros de cabelos ruivos. Os seus enormes olhos castanhos olharam para mim. «Olá Katherine, queres casar comigo?»
«Por favor, não peças isso. Não gosto disso.»
«A sério.»
«Oh, merda, Hank.»
«O quê?»
«Eu disse merda, e se continuas, apanho o primeiro avião.»
«OK.»
«Hank?»
«Sim?»
Olhei para ela. Continuava a escovar os cabelos. Os seus olhos castanhos olharam para mim, ela sorria-se. «É só sexo, Hank, é apenas sexol» Riu-se. Não era um riso sardónico, era um riso alegre. Ela escovava os cabelos, pus o meu braço em redor da sua cintura e pousei a cabeça na sua perna. Já não estava seguro de nada.

Charles Bukowski
Trecho da obra Mulheres.
Entrei para a cama. A pequena rapariga-mulher estava pronta. Puxei-a para cima de mim. A sorte estava de novo comigo, os deuses eram-me favoráveis. Os nossos beijos tornaram-se mais violentos. Pus a sua mão no meu caralho e puxei a sua camisa de noite para cima. Comecei a mexer-lhe na cona. Katherine com uma cona? O clitóris saiu e toquei-o doce e insistentemente. Por fim, montei-a. O meu caralho entrou até metade. Era muito estreita. Eu ia e vinha e depois empurrava. O resto do meu caralho escorregou. Glorioso. Ela arranhou-me. Eu mexia-me e ela arranhava-me mais. Tentava controlar-me. Parei de a comer e esperei que acalmasse. Beijei-a, entreabri-lhe os lábios, chupei-lhe o superior. Vi os seus cabelos espalhados na almofada. Depois renunciei a dar-lhe prazer e fodi-a simplesmente, fodia-a viciosamente. Era como um assassínio. Não me preocupei; o meu caralho estava louco. Todo aquele cabelo, o seu jovem e belo rosto. Era como violar a Virgem Maria. Vim-me. Vim-me dentro dela, agonizando, sentindo o meu esperma entrar no seu corpo, ela nada podia, e disparei o meu esperma ao mais fundo dos seus órgãos - corpo e alma - sem parar...

Charles Bukowski
Trecho da obra Mulheres.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Parte III - A Cidade do Sol

 No trajeto de volta para casa, apoiada em Mariam, Laila podia ouvir os gritos apavorados da filha. Revia nitidamente a cena: as mãos grandes e calosas de Zaman segurando a menina pelos braços, puxando-a, a princípio com brandura, depois, com mais vigor, e, finalmente, com força, para fazê-la soltar a mãe. Via Aziza, nos braços do diretor, dando chutes e pontapés, enquanto ele a levava às pressas para algum lugar; e ouvia a menina gritar como se fosse desaparecer da face da terra. E via a si mesma, correndo pelo corredor, de cabeça baixa, com um berro lhe subindo pela garganta.
 — Sinto o cheiro dela — disse a Mariam quando já estavam em casa. Seus olhos fitavam o vazio, por sobre os ombros de Mariam, para além do quintal, dos muros, na direção das montanhas, escuras como uma cusparada de tabaco. — Sinto o cheiro dela dormindo. Você também sente? Sente o cheiro dela?

sábado, 30 de abril de 2011

Parte II - A Cidade do Sol IV

 Com o passar do tempo, foi aos poucos se cansando desse exercício. Começou a achar cada vez mais exaustivas essas tentativas de evocar, de desenterrar, de ressuscitar mais uma vez o que há muito tinha morrido. Na verdade, anos mais tarde, chegaria o dia em que Laila não choraria mais por essa perda. Ao menos, não tanto; não tão constantemente. Chegaria o dia em que os detalhes daquele rosto começariam a escapar às garras da memória, em que o simples fato de ouvir uma mãe chamando o filho de Tariq pela rua não a deixaria inteiramente desnorteada. Não sentiria tanta falta dele como agora, quando a dor de sua ausência não a deixava em paz por um momento sequer — como a dor fantasma de um membro amputado.
 Depois de adulta, só muito raramente, quando estava passando uma camisa ou empurrando os filhos no balanço, alguma coisa bem banal, talvez o contato quente do tapete sob os pés num dia de calor, ou o contorno da testa de um estranho, trazia à tona a lembrança daquela tarde. E, de repente, tudo voltava à sua mente. A espontaneidade daquele momento. A espantosa imprudência dos dois. Sua falta de jeito. A dor, o prazer, a tristeza daquele ato. E o calor de seus corpos abraçados.
  Aquela lembrança a inundava, chegando a lhe tirar o fôlego. Mas passava. O momento passava. Deixando-a vazia, sentindo apenas uma vaga inquietação. Chegou a conclusão que ele tinha perguntado "Estou machucando você?" Isso mesmo. E ficou feliz por ter se lembrado.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Parte II - A Cidade do Sol III

Naquele instante, tudo o que mammy tinha dito sobre reputação e mainás lhe pareceu absolutamente insignificante. Até mesmo absurdo. No meio de tanta matança e de tantas pilhagens, de todo aquele horror. Aquele beijo ali debaixo de uma árvore não podia fazer mal algum. Era uma coisinha à toa. Uma indulgência facilmente desculpável. Então, deixou que Tariq a beijasse e, quando ele se afastou, Laila se inclinou para beijá-lo, com o coração aos pulos, o rosto ardendo, um fogo queimando por dentro.


terça-feira, 19 de abril de 2011

Parte II - A Cidade do Sol II

 De quando em quando, ao ver os olhares tristonhos das pessoas naquela sala, Laila percebia a intensidade do desastre que se abateu sobre sua família. As possibilidades negadas. As esperanças frustradas.
 Mas o sentimento não durava muito. O difícil era sentir, sentir de verdade, a perda de mammy. Não era fácil tentar experimentar a tristeza, sofrer pela morte de gente que ela nunca tinha considerado viva.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Parte II - A Cidade do Sol

Quando ouvia essas histórias, Laila percebia nitidamente que tinha havido uma época em que a mãe falava sempre de seu pai nesses termos. Uma época em que seus pais não dormiam em quartos separados.
E a menina adoraria ter vivido esse tempo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

A Cidade do Sol IV

Quando pensava no bebê, seu coração crescia no peito. Crescia e crescia até que todas as tristezas, as dores, a solidão e o sentimento de inferioridade que haviam povoado a sua vida
desapareciam por completo. Foi para isso que Deus a trouxe até aqui, fazendo-a atravessar o país de um lado a outro. Agora, sabia disso. Lembrou de um versículo do Corão que o mulá Faizullah tinha lhe ensinado: "A Allah pertencem o leste e o oeste, e para onde quer que vos volteis lá encontrareis a face de Allah..." Ajoelhou-se no tapete de orações e fez suas namaz. Quando terminou, escondeu o rosto com as mãos e pediu a Deus que não deixasse toda essa felicidade lhe escapar.

 

A DOR CONTINUAVA A SURPREENDER MARIAM. Bastava ela pensar no berço inacabado, ali no galpão do jardim, ou no casaco de camurça guardado no armário de Rashid. Com isso, o bebê ganhava vida e ela podia ouvi-lo, podia ouvi-lo resmungar, com fome, podia ouvir seus murmúrios e seus balbucios. Sentia a criança farejando os seus seios. Aquela dor a invadia, a dominava, revirava todo o seu ser. Mariam estava estarrecida: como podia sentir tanta saudade de alguém que jamais tinha chegado a ver?

...

Mas a dor de Mariam não era vaga e indeterminada. Estava sofrendo por aquele bebê, aquela criança em particular, que, por algum tempo, a tinha feito tão feliz. Às vezes, achava que o bebê tinha sido uma bênção que ela não merecia, e que estava sendo punida pelo que tinha feito a Nana. Pois não era exatamente como se ela mesma tivesse posto a corda no pescoço da mãe? Filhas ingratas não merecem ser mães, e o castigo era justo. De quando em quando, sonhava que o jinn de Nana vinha ao seu quarto, a noite, se arrastando, para abrir sua barriga com as
garras e roubar o seu bebê. Nesses sonhos, Nana ria muito, deliciada com aquela vingança.

...

A culpa era de Deus, por zombar dela daquele jeito. Por não lhe conceder o que concedia a tantas outras mulheres. Por acenar para ela, de forma tão sedutora, com a coisa que a deixaria mais feliz e, depois, voltar atrás.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Cidade do Sol III

Adoraria que a mãe estivesse viva para ver isso. Para vê-la em meio a tudo isso. Para ver, enfim, que alegria e beleza não são coisas inatingíveis. Mesmo para gente como elas.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Motivos para não se misturar sexo e amizade!

Depois de dormir com Harry durante todos esses anos aprendi a duras penas que trepar com os amigos, na melhor das hipóteses, sempre acaba em confusão de algum tipo e muitas complicações. No mínimo, alguém sai magoado ou se sente constrangido para continuar a amizade. Já perdi um amigo - um triste sacrificio por uma noite (ou noites) de paixão - e não pretendo fazer isso de novo.
A vida real não é um cinema, onde dois grandes amigos acabam fazendo sexo. Na vida real há constrangimento, nervosismo e insegurança, e quando você acorda na manhã seguinte percebe que sua amizade nunca mais será a mesma. Na vida real você perde uma amizade de vinte anos porque vocês beberam juntos e foram para a cama. Na vida real você fica nervosa por estar junto de um homem, embora durante a infância dormisse na mesma cama com ele. Na vida real você não tem certeza se seu amigo está olhando para você porque quer tirar sua roupa ou porque acha que sua saia nãolhe cai bem. Na vida real não se deve ultrapassar os limites estabelecidos, sexo e amizade devem ser mantidos à parte.


A garota que só pensava naquilo.
Abby Lee

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Cidade do Sol II

Mariam se virou e foi se dirigindo para a porta do ônibus. Ouviu os passos dele às suas costas. Quando já estava quase entrando, ele a chamou: 
— Mariam jo!
Ela subiu os degraus e, embora pudesse vê-lo ao seu lado com o rabo do olho, não olhou pela janela do veículo. Foi caminhando pelo corredor até o fundo do ônibus, onde Rashid estava sentado com a mala dela entre os pés. Não se moveu quando viu as mãos de Jalil na vidraça, quando os seus dedos bateram no vidro várias vezes. O veículo arrancou, e ela nem se virou para vê-lo correndo ao seu lado. E, quando partiram, não olhou para trás para vê-lo desaparecer na nuvem de poeira e de fumaça do
cano de descarga.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Acho que me tornei uma maníaca sexual

Querido Deus,
Eu sei que não temos um relacionamento próximo, e isso porque não acredito emvocê, mas pondo esse fato de lado por um instante, eu gostaria de conversar um pouco.
Tenho uma reclamação a fazer. Não é sobre o tsunami que ceifou tantas vida. Nem sobre milhões de pessoas que foram expostas ao HIV e AIDS por terem seguido o dogma sem sentido do Vaticano. Nem tampouco sobre a forma como partes imensas desse planeta estão morrendo devido ao desperdício desnecessário e ao egoísmo dos seus participantes. Não, é sobre um assunto muito mais importante: acho que me tornei uma maníaca sexual.





Claro que não fui eu quem escreveu isso.
=D
Trecho de A Garota que só pensava naquilo.
Abby Lee
[sou fã incondicional de literatura erótica]

Sobre mortos nem tão mortos assim

— E aquela história de não falar mal dos mortos?
— Na minha opinião, tem gente que nunca está morta o bastante — disse ele.


....







— Já faz quase vinte anos que ele morreu — disse Laila. — Será que morrer uma vez só não basta?


Khaled Housseini
Trecho de A Cidade do Sol

domingo, 3 de abril de 2011

A Cidade do Sol

— Volte! Não! Não olhe agora. Vire-se! Volte! Mas foi em vão.
Mariam viu assim mesmo. Uma rajada de vento afastou as folhagens do salgueiro-chorão, como se abrisse uma cortina, e a menina avistou de relance o que estava do outro lado: a cadeira de encosto alto, caída no chão. A corda pendendo de um ramo mais alto. E Nana pendurada na outra ponta.

...

Para cada tribulação e cada sofrimento que Deus nos faz enfrentar, Ele tem um motivo.
Mas Mariam não conseguia perceber consolo algum nas palavras de Deus. Não naquele dia. Não naquele momento. Tudo o que podia ouvir era a voz de Nana dizendo: "Se você for, eu morro. Simplesmente morro."

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Madamme Bovary (VIII)

Emma, porém, vivia cheia de desejos, de raiva, de ódio. Aquele vestido de pregas escondia um coração revoltado e aqueles lábios tão pudicos não confessavam o seu tormento. Ela estava apaixonada por Léon e procurava a solidão para poder mais à vontade deleitar-se com a sua imagem. a visão da sua pessoa perturbava a volúpia daquela meditação. Emma palpitava ao ruído dos seus passos, depois, em presença dele, desfazia-se-lhe a emoção e, a seguir, só lhe ficava um imenso espanto, que terminava em tristeza.

[...]Então, os apetites da carne, as cobiças do dinheiro e as melancolias da paixão, tudo se confundia num mesmo sofrimento, e, em vez de procurar afastar daí o pensamento, ainda mais se prendia ao mesmo, excitando-se à dor e procurando para isso todas as ocasiões. Irritava-se com um prato mal servido ou com uma porta entreaberta, lastimava-se pelo veludo que lhe faltava, pela felicidade que não tinha, por as suas aspirações serem demasiado elevadas e por a casa ser acanhada de mais.
O que a exasperava é que Charles não dava a impressão de suspeitar do seu suplício. a convicção que ele tinha de a fazer feliz parecia-lhe um insulto imbecil e a segurança que revelava a esse respeito ingratidão. Por causa de quem se comportava ela tão escrupulosamente?