Paulo Rigger aproximou-se.
- Mademoseille...
- Mademoseille, não. Julie, sim.
- Ah, Júlia, você é adorável!
- Só isso que você me diz? Isso me disseram todos aqueles rapazes que me galantearam há pouco. Eu pensei que você tivesse qualquer coisa mais nova para me dizer...
- Sim, tenho. Quero lhe dizer que os seus olhos prometem coisas absurdas, mas eu conheço todas as coisas absurdas e duvido muito que me dê qualquer coisa nova.
- Hoje à uma hora. A porta de meu camarote estará aberta... Esperá-lo-ei.
No seu camarote Paulo Rigger pensava se devia ir ao encontro de Julie. Uma grande lassidão invadia-lhe os membros. Pensou em Julie. E teve medo dos seus olhos. Não, não iria. Aquela mulher era capaz de se agarrar a ele como uma sarna no Brasil. E, ademaos, não passava de uma rameira conhecida. Uma mulher que amava por dinheir, sem amor. Que lhe poderia dar de novo? Prazer, ele conhecia muito. Carne... Mas o amor talvez não fosse somente carne... Talvez fosse alguma coisa mais... Essa outra coisa, ele não conhecia. Afirmava até que ela não existia. Existisse ou não, a francesinha não lha poderia dar. Daria somente o sexo... E do mesmo modo de sempre. Bolas! Não iria lá...
E Julie esperou por toda a noite, nua, a sonhar volúpias incríveis. Depois, chorou de raiva, mordendo o travesseiro... Por fim xingava-o, era um animal. Não sabia que ela reservara para ele as carícias que nunca vendera a ninguém... Imbecil!
E Paulo Rigger sonhava que tinha uma namorada romântica que lia Henri Ardel e tocava valsas muito sentimentais no piano.
No outro dia, o grito da descoberta:
- Terra! Terra!
Lá longe, o País do Carnaval.
Jorge Amado.
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segunda-feira, 10 de setembro de 2012
O país do carnaval
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sábado, 8 de setembro de 2012
O menino grapiúna - parte II
Os pais arruinados, perdidas as terras e as roças de cacau, cortam e preparam couro para tamancos. A casa pobre é moradia e oficina, mas o menino vive na praia, no encontro do rio com o mar, as ondas poderosas e as águas tranquilas, o coqueiral, o vento e a presença da menina por quem pulsa seu pequeno coração. Como se chamava? Perdeu-se o nome, na memória ficou apenas a imagem da cavalgada, de mistura com as histórias de fadas e piratas em curiosas versões regionais de dona Eulália. Ficaram o audaz alazão e o rosto moreno, os cabelos lisos, de cabo verde, da primeira namorada. Namorada seria muito dizer, com tão pouca idade ainda não se namorada, mas com que intensidade se ama!!
Jorge Amado
Trecho do livro "O menino grapiúna".
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O menino grapiúna
A longa e dura experiência ensinou-me, no passar dos anos, a importância de pensar pela própria cabeça. Para pensar e agir por minha cxabeça, pago um preço muito alto, alvo que sou de patrulhamento de todas as ideologias, de todos os radicalismos ortodoxos. Preço muito alto, ainda assim muito barato.
Jorge Amado
Trecho do livro "O menino grapiúna".
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